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Conflito entre sócios: como prevenir e como resolver [4 dicas]

  • Foto do escritor: levitargavianna
    levitargavianna
  • 21 de nov. de 2023
  • 8 min de leitura

Há quem tenha pavor da palavra "sócio" e prefira trabalhar sozinho. Muitas vezes isso se dá ou por uma experiência traumática em uma sociedade anterior ou simplesmente porque a pessoa tem dificuldade em compartilhar, ouvir uma opinião contrária e ceder. De fato, trabalhar com pessoas não é fácil e trabalhar com pessoas que não são obrigadas a te obedecer, é mais difícil ainda.


No geral, como humanos, costumamos ter muito déficits em nossa comunicação e isso é normal, porque carregamos nossas dores e traumas e muitas coisas nos tornam mais introspectivos ou até mesmo inseguros, o que nos impede de compartilhar e comunicar da forma como de fato deveríamos. Embora não estejamos aqui para uma sessão de terapia, precisamos reconhecer que quando estamos mais seguros de nós mesmos, da nossa visão e de que estamos construindo algo bom, temos mais facilidade para dominar a desafiadora arte da comunicação. No mundo ideal, estamos seguros e não precisamos provar nada para ninguém e por isso nos comunicamos com assertividade. Porém, não vivemos no mundo ideal e por isso precisamos aprender a fazer a gestão até mesmo das falhas nos relacionamentos.


Ninguém constrói nada grande sozinho. Precisamos de pessoas e isso é um fato. Apesar dos inúmeros conflitos que podem surgir do relacionamento, ter um sócio é ainda a melhor forma de empreender. Duas cabeças pensam melhor do que uma e é importante ter alguém do lado para que também filtre e valide tudo aquilo que é proposto, afinal, você só percebe que teve uma má ideia quando alguém te convence disso ou simplesmente depois que tudo deu errado. A primeira opção é melhor do que a segunda. Mas se ter um sócio é bom, como conduzir a sociedade de forma que não traga desgaste e arrependimento ao final?


Vem comigo e vamos ver alguns princípios.


1 - Entenda que sociedade é casamento e você deve escolher bem com quem vai casar


Imagina comigo o seguinte cenário: um homem, muito sistemático e pragmático, tem como meta uma vida simples. Estudou muito, se concursou e seu prazer é desfrutar da sua casa, de um bom livro e sua grande aventura é assistir um filme de ação na Netflix. Esse simples homem se apaixonou e se casou com uma mulher muito criativa e desapegada. Ela, por sua vez, não suporta ficar parada, gosta de viajar, gosta de aventura, tem aversão a livros e prefere uma boa trilha e um bom acampamento em um parque ambiental. A essa altura, você já consegue projetar comigo que se nenhum dos dois estiver disposto a mudar seus hábitos radicalmente, não tem como esse relacionamento ir adiante, e na maioria das vezes o resultado é de fato a separação.


Apesar de não estarmos em uma sessão de terapia de casal, esse exemplo nos ajuda a entender também a dinâmica de uma sociedade. Imagina comigo agora o seguinte cenário: um sócio é um homem de negócios à moda antiga. Seu desejo é ter uma comércio local, com loja física, gerando impacto onde esse comércio está inserido. Tem por princípios, sempre fomentar a economia local e gosta de ver a materialização do seu sucesso expressada nas fachadas das suas empresas. Para ele, ainda que haja expansão para outras localidades, o princípio será sempre o mesmo, o foco no comércio local. Por outro lado, o outro sócio gosta mais da economia moderna, onde o online reina. Seu desejo é criar um império online, ser o maior do seu ramo no digital e seu foco é a escalabilidade e alcance que essa nova economia oferece e acha que manter estruturas locais deve ser considerado "despesa desnecessária" que mina a lucratividade da empresa.


Assim como no caso dos pombinhos apaixonados no primeiro exemplo, você deve ter se identificado mais com um dos sócios do que com o outro e logo você presume que a forma de pensar da outra pessoa está errada, mas na verdade não, são apenas formas de viver e visões diferentes. Veja bem, ainda que uma pessoa pragmática precise de um pouco de aventura na vida e a pessoa criativa precise de um pouco de organização, assim como um negócio local precisa colher os benefícios do posicionamento digital e um negócio digital precisa se manter conectado de alguma forma ao que chamamos de "economia real", as diferenças de visões podem tornar o relacionamento insuportável. E mais uma vez é importante destacar que não há o certo e o errado, há visões diferentes.


Assim como em um relacionamento amoroso, é completa loucura você embarcar em um relacionamento de negócios acreditando que será capaz de mudar a visão dessa pessoa. É preciso uma avaliação honesta se é possível conciliar a visões e não sendo é melhor não dar prosseguimento.


2 - Tenha clareza sobre o que você tem a oferecer e o que se espera do outro


Um novo relacionamento sempre empolga. Quando falamos de um relacionamento amoroso, tem toda aquela história de borboletas no estômago e toda aquela expectativa e ansiedade para iniciar uma linda jornada de amor (estou bem romântico hoje). Porém, na maioria das vezes, no início de um relacionamento nós nos apaixonamos pela imagem que projetamos da outra pessoa e não por ela em si, porque ainda não a conhecemos o suficiente e conheceremos, de fato, no caminhar do relacionamento. Com uma sociedade não é diferente.


Na hora de iniciar um novo negócio, existe muita empolgação envolvida. É a expectativa de um novo capítulo, uma nova história empolgante, um novo futuro a ser escrito. Contudo, no meio de tanta empolgação, podemos acabar deixando de lado um real alinhamento das expectativas e quando eu falo sobre isso, falo sobre sentar e conversar: "olha, eu posso oferecer isso, isso e isso e espero de você aquilo, aquilo e aquilo. Estamos de acordo?" Pela falta desse diálogo, acaba surgindo aquela sensação e uma reclamação muito comum nas sociedades que é o famoso "eu trabalho mais do que o meu sócio!" Isso gera indignação, cansaço, desgaste e a sensação que você está sendo explorado ou alguém está se aproveitando de você, mas o que faltou na verdade foi firmar um entendimento do que cada um poderia oferecer e até mesmo um entendimento de que tipo de trabalho é mais importante para cada.


As pessoas têm conceitos de trabalho diferentes e enquanto um é mais estratégico, outro é mais operacional. Para uns, importa as soluções encontradas, para outros, importa mais as horas trabalhadas e te digo com muita tranquilidade que ambos são importantes para o bom caminhar de um negócio. Se todo mundo fica pensando, ninguém executa. Se todo mundo executa, ninguém pensa. O resultado dos dois cenários é o mesmo: o fracasso.


Entendo que além do alinhamento de expectativas iniciais, um bom remédio para esse problema é a prestação de contas. Muitos estranham esse conceito, afinal "viraram chefes para ter que dar satisfação aos outros?" Pois é, o nome disso é orgulho e mostra que você ainda não está habilitado a ser um grande líder que engaja um excelente time, mas isso é tema para outro artigo. A prestação de contas serve não para controlar o outro mas para ver a vida da empresa pulsando no dia a dia, verificar o progresso nos processos estabelecidos para alcançar os alvos sonhados. Além disso, gera reconhecimento e a tranquilidade de saber que todos estão empenhados em prol do mesmo objetivo, gerando ânimo, motivação e a felicidade de estar trabalhando com as pessoas certas.


3 - Tenha um mediador imparcial


Pois bem, passamos para o cenário onde o conflito já está instaurado e tão certo quanto o Vasco da Gama vai me fazer passar raiva é o conflito entre os sócios. Veja bem, não estou falando que os sócios estão fadados a se digladiarem dentro da empresa, mas sim que naturalmente vai haver algum tipo de conflito, porque são pessoas e pessoas são diferentes. Aprendi uma vez que se duas pessoas concordam em tudo, uma delas está mentindo, afinal ninguém é absolutamente igual a ninguém.


Alguns conflitos, sinceramente, não merecem tanto tempo e energia porque são coisas mais triviais. Apenas fique atento para a soma dos pequenos conflitos não se tornar alta demais. O ideal é que tudo seja resolvido, mas quando algo não é tão relevante o que recomendo que você pense é: "essa é uma briga que vale a pena comprar? O que ela me gerará de avanço ou gerará de avanço para empresa?" Falo isso sobre aquelas discussões que são como um casal brigando se a tampa do vaso deve ficar levatanda ou abaixada. Isso não vai mudar a vida de ninguém! (mantenha sempre a tampa abaixada, porque a cada descarga é uma explosão de bactérias e isso é nojento! #TeamTampaAbaixada).


Porém, alguns conflitos são mais relevantes. Existe um artigo publicado na revista Havard Business Review, escrito por Dominic Dodd e Ken Favaro, que vai, por exemplo, identificar três pontos comuns de conflitos:

  1. Lucratividade vs Crescimento

  2. Curto Prazo vs Longo Prazo

  3. Todo vs Partes


Esses são conflitos que interferem diretamente no futuro da empresa, porque são conflitos que vão falar sobre a modelagem do negócio, posicionamento comercial, métodos de gestão etc. Mais uma vez aqui é importante buscar a conciliação dos interesses, porque não há certo ou errado, tudo precisa ser considerado, ponderado e a solução encontrada precisa ser aquela que melhor se adequa com o cenário atual da empresa e com a visão de negócio que pretender perpetuar. O problema é que chegar nesse consenso não é fácil.


Diante de cenários como esse, uma boa solução é recorrer a mediadores externos. Não estou falando sobre escolher o primeiro que passar na sua frente na rua para julgar um duelo de argumentação entre os sócios e escolher aquele que emociona mais a plateia, mas estou falando sobre escolher alguém gabaritado para entrevistar os sócios, avaliar o plano de negócios da empresa, o cenário e as opções apresentadas. Esse mediador não vai tomar a decisão final, mas como um terceiro técnico e imparcial, terá a capacidade de conduzir as negociações longe das paixões daqueles que defendem suas próprias ideias, para que se chegue a um denominador comum. Após essa mediação, elabora-se um acordo, todos os envolvidos assinam e vão trabalhar com base na decisão tomada.


4 - Considere a dissolução da sociedade


Nenhum conflito é impossível de ser solucionado por natureza, apenas se torna pela falta de disposição das partes em ceder. O limite do sucesso de uma mediação entre interesses é o limite imposto pela mentalidade de quem está envolvido no conflito. Dito isso, em alguns momentos se torna de fato impossível conciliar os interesses, porque as visões não batem mais e nesse momento o melhor é cada um seguir seu rumo. Não estou dizendo para você sair como uma criança mimada no dia seguinte e deixar o outro "se virando nos 30" para preencher a lacuna que você deixou. Mas afirmo que se os interesses não conciliam mais, as visões diferentes vão se atrapalhar e a partir desse momento a empresa caminha a largos passos para o insucesso e ninguém quer isso (ou não deveria querer, pelo menos).


Diante de um cenário onde não existe mais a possibilidade de continuidade da empresa no modelo de sociedade em que está, surgem algumas opções que vão envolver desde a dissolução completa da sociedade com o encerramento da empresa, até a redução da empresa para operar com apenas um sócio, quando isso é possível. Se todos os sócios desejam sair do negócio, o primeiro passo a se tentar é a venda da empresa.


Particularmente, eu acredito que empresas não se fecham, se vendem (há exceções!). Mas se um dos sócios deseja continuar na atividade, é necessário avaliar qual o melhor caminho: a venda parcial da empresa (seja para esse sócio ou para um terceiro interessado) ou a dissolução parcial dela. Nessa última opção, será necessário fazer a apuração de haveres em um procedimento detalhado para entender o que pertence a cada um, para que o sócio retirante tenha direito a levar sua parte consigo e isso resultará na redução do capital social da empresa.


Em todos esses cenários, é necessário a presença de um profissional que ajudará na condução dessa difícil tarefa. Assim como casais precisam de um advogado para se divorciar, sócios precisam de advogados para se separarem também.


Vou encerrar esse texto por aqui, porque se ficar grande demais, ninguém vai querer ler, convenhamos.

 
 
 

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